Enter vira 1º unicórnio de IA da América Latina e mira G5 global
A startup brasileira Enter atingiu avaliação de US$ 1,2 bilhão (cerca de R$ 6 bilhões) após receber aporte de US$ 100 milhões liderado pelo Founders Fund, tornando-se o primeiro unicórnio de inteligência artificial da América Latina. Com a plataforma EnterOS de automação jurídica, a empresa paulistana quer colocar o Brasil entre os cinco maiores polos globais de IA.

- Enter atingiu avaliação de US$ 1,2 bilhão após aporte de US$ 100 milhões do Founders Fund, tornando-se 1º unicórnio de IA da América Latina
- Plataforma EnterOS automatiza análise de processos judiciais e já é usada por Bradesco, Nubank, Mercado Livre, Airbnb e Latam Airlines
- CEO Mateus Costa-Ribeiro afirma que o objetivo é colocar o Brasil no G5 global de desenvolvimento de IA, ao lado de EUA e China
- Brasil concentra mais de 90% dos processos trabalhistas globais, tornando o país um laboratório ideal para validar tecnologia jurídica
- Parcerias com OpenAI e Anthropic garantem segurança de dados e conformidade com padrões de confidencialidade corporativa
Uma aposta que decolou: a história da Enter
A Enter foi fundada em setembro de 2023 por Mateus Costa-Ribeiro, Michael Mac-Vicar e Henrique Vaz — três empreendedores que apostaram na automação de processos judiciais com inteligência artificial. O CEO e cofundador Costa-Ribeiro era aluno de MBA em Stanford quando decidiu abandonar o curso para se dedicar integralmente ao projeto. "Eu acordava às 4h da manhã todos os dias para trabalhar com o time, que ficava no Brasil. Em dezembro, decidi abandonar o MBA porque a sensação de tocar a empresa pela metade era insuportável", contou o cofundador.
O crescimento foi vertiginoso. A empresa começou com receita mensal de R$ 8 mil em seus primeiros meses e, em apenas cinco meses de operação, saltou para R$ 80 mil. Esse momentum atraiu investidores de peso: a rodada de investimento de US$ 100 milhões foi liderada pelo Founders Fund, fundo de Peter Thiel conhecido por apoiar empresas de tecnologia transformadoras, e contou com a participação de Ribbit Capital e Sequoia Capital.
Como funciona a plataforma EnterOS
A Enter desenvolveu uma solução para um dos maiores gargalos do setor jurídico corporativo: a automação da análise de processos judiciais. A plataforma EnterOS funciona como um assistente de inteligência artificial que lê processos, cruza informações internas das empresas, busca evidências relevantes e estrutura estratégias preliminares de defesa em ações cíveis e trabalhistas.
O diferencial está na velocidade e na redução de custos. Tarefas repetitivas que consumiam horas de trabalho manual agora são automatizadas, permitindo que os advogados se concentrem apenas na revisão final e validação das estratégias apresentadas pela IA — essencialmente, o conhecimento jurídico humano continua essencial, mas potencializado pela tecnologia.
Grandes corporações já utilizam a plataforma. Entre os clientes estão Bradesco, Nubank, Mercado Livre, Airbnb e Latam Airlines. A Latam, por exemplo, conseguiu reduzir em 30% a taxa de improcedência em seus processos utilizando o EnterOS, segundo informações divulgadas.
O Brasil como laboratório jurídico global
Por que o Brasil é tão importante para essa aposta? De acordo com Costa-Ribeiro, o país concentra mais de 90% dos processos trabalhistas globais — uma proporção que parece desproporcional, mas reflete a complexidade do sistema judicial brasileiro e a quantidade de litígios envolvendo grandes corporações. O sistema judiciário brasileiro é, reconhecidamente, um dos mais complexos do mundo.
Essa complexidade é paradoxalmente uma vantagem competitiva. "Se conseguimos resolver esse problema no Brasil, conseguimos resolver em qualquer lugar do mundo. Por exemplo, temos empresas americanas como Meta e United, que sofrem mais processos de consumidores no nosso país do que nos Estados Unidos", explicou o CEO. Isso transforma o Brasil em um laboratório perfeito para validar e aperfeiçoar a tecnologia antes da expansão global.
Ambição global: colocar o Brasil no G5 de IA
O objetivo declarado da Enter é colocar o Brasil entre os cinco maiores polos globais de desenvolvimento de inteligência artificial, ao lado de Estados Unidos e China — países que hoje dominam a geração de tecnologias transformadoras. Essa não é uma meta apenas da empresa, mas um reflexo de uma ambição nacional mais ampla de desenvolvimento tecnológico.
Para garantir a confiança de clientes corporativos, a Enter estabeleceu parcerias estratégicas com OpenAI e Anthropic. Essas parcerias garantem que os dados sensíveis dos clientes não são armazenados em servidores da empresa, mas processados de forma segura através dos sistemas das parceiras de IA, atendendo a rigorosos padrões de confidencialidade e compliance.
Por que isso importa: o impacto prático
A automação jurídica não é apenas uma questão tecnológica — é também econômica. Grandes empresas gastam bilhões anualmente com litígios e consultoria jurídica. Reduzir esses custos sem comprometer a qualidade das defesas é transformador. Além disso, a velocidade da plataforma permite que as organizações respondam mais rapidamente a ações judiciais, aumentando as chances de sucesso.
Para o setor jurídico brasileiro especificamente, a Enter representa uma mudança de paradigma. Por décadas, escritórios de advocacia operaram com modelos pouco alterados — documentação manual, análise demorada de processos, abordagens repetitivas. A IA jurídica promete democratizar o acesso a estratégias sofisticadas de defesa, já que a tecnologia pode ser replicada facilmente entre clientes.
O que vem a seguir
Com US$ 1,2 bilhão em avaliação e capital fresco de US$ 100 milhões, a Enter tem recursos para expandir geograficamente e aprofundar suas capacidades tecnológicas. Espera-se que a empresa invista em pesquisa e desenvolvimento, expansão do time e penetração em novos mercados jurídicos — tanto em outros países da América Latina quanto em mercados desenvolvidos como Europa e Ásia.
O momento marca um ponto de inflexão importante: a primeira vez que um unicórnio pure-play de IA emerge da América Latina. Isso abre caminho para outras startups da região apostarem em inovação tecnológica profunda, mostrando que o ecossistema latino-americano pode gerar empresas de impacto global, não apenas soluções locais.




