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Arte, ciência e ritmo: as iniciativas que estão redefinindo a cultura no Brasil

De um biólogo que transforma a fauna brasileira em ilustrações científicas a festivais musicais que levam educação a crianças no interior do Rio de Janeiro, o Brasil desperta para um movimento cultural plural e vibrante — ainda que, segundo especialistas, as capitais sigam aquém do seu verdadeiro potencial.

Por Eu Googlando IA4 min de leitura
Arte, ciência e ritmo: as iniciativas que estão redefinindo a cultura no Brasil
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  • O biólogo Ricardo Ribeiro, graduado pela UFG e mestre pela UFPA, alia ciência e ilustração para popularizar o conhecimento sobre a fauna brasileira.
  • Especialistas no São Paulo Innovation Week alertam que todas as capitais brasileiras estão aquém do seu potencial cultural, citando a polarização ideológica como obstáculo.
  • A Casa de Cultura Adolpho Bloch, em Teresópolis (RJ), receberá em 20 de maio uma aula-show educativa sobre a diversidade musical do Brasil.
  • José Mauro Gnaspini, idealizador da Virada Cultural, e o ex-secretário de Cultura de SP Alê Youssef defendem um projeto cultural nacional desideologizado.
  • O Festival Brasilidades, com programação social e educativa, ocorre em 5 de junho em Teresópolis (RJ).
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Quando a ciência encontra a arte: o biólogo que desenha o Brasil

Ricardo Ribeiro não é apenas um cientista. Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e mestre em ecologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA), ele é também um ilustrador cuja obra carrega o peso de uma paixão que começou ainda na infância — e que a vida adulta tentou, por algum tempo, sufocar.

Aos cinco anos, Ricardo já se encantava com documentários de natureza. "Eu ficava maravilhado ao ver reportagens do Globo Repórter e do David Attenborough no programa Planeta Terra na TV Cultura, além de observar os animais durante as férias na fazenda do meu avô ou quando pescava com meu pai na região do rio Araguaia", relembra o biólogo, em entrevista ao portal Terra da Gente, publicada em 15 de maio de 2026.

Os primeiros desenhos eram esboços baseados nos programas de TV, em fotografias de jornais e até nas imagens das caixas de lápis de cor. Simples, mas profundamente reveladores de uma vocação que o mundo acadêmico quase fez desaparecer.

O reencontro com o lápis

Durante os anos de graduação, as demandas dos estudos afastaram Ricardo de suas ilustrações. A arte foi ficando de lado — até que, no segundo ano da faculdade, um presente mudou tudo.

"Realizei uma ilustração do periquito-de-encontro-amarelo (Brotogeris chiriri) e presenteei um casal de amigos que vive no interior de Goiás", conta Ricardo, ao Terra da Gente. O gesto simples reacendeu uma chama que nunca havia se apagado de verdade.

A partir daí, Ricardo passou a conciliar a rigorosidade da ciência com a sensibilidade da arte. Suas ilustrações científicas e naturalistas tornaram-se uma ponte entre o conhecimento técnico-biológico e o público leigo — uma forma de popularizar a fauna brasileira de maneira acessível, visualmente envolvente e pedagogicamente rica.

A iniciativa de Ricardo é, em essência, um manifesto silencioso: a arte pode ser um veículo poderoso de educação ambiental e preservação cultural. E ela não precisa de galeria para existir — pode nascer da observação de um periquito ou da memória de um rio.

"As capitais estão aquém do poder cultural"

Se no interior do Brasil a arte floresce de forma espontânea, nas grandes cidades o diagnóstico é mais preocupante. Durante o São Paulo Innovation Week, realizado em 13 de maio de 2026 na FAAP, dois dos maiores nomes da gestão cultural brasileira lançaram um alerta que ecoou pela plateia.

José Mauro Gnaspini, diretor do Centro Cultural São Paulo (CCSP) e idealizador da Virada Cultural, e Alê Youssef, ex-secretário de Cultura de São Paulo, participaram do painel "Ocupação cultural: a cidade como polo de poder cultural". A conclusão foi dura.

"Todas as capitais do Brasil estão aquém do poder cultural", afirmou Gnaspini, segundo reportagem do Estadão publicada no mesmo dia. Os especialistas apontaram a polarização ideológica como um dos principais obstáculos para que o país desenvolva um verdadeiro "projeto cultural nacional".

O debate, mediado por Victor Drummond, revelou um paradoxo incômodo: o Brasil é uma das nações com maior diversidade cultural do mundo, mas ainda não conseguiu transformar esse patrimônio em política pública consistente e duradoura. A cultura, no país, segue refém dos ciclos eleitorais e das disputas partidárias — e quem perde, invariavelmente, é o cidadão.

Música como ferramenta de educação em Teresópolis

Enquanto o debate se acalorava em São Paulo, a cidade serrana de Teresópolis, no Rio de Janeiro, preparava uma resposta prática à crise cultural diagnosticada pelos especialistas.

No dia 20 de maio de 2026, a Casa de Cultura Adolpho Bloch recebe a aula-show "Brasilidades: uma viagem pelos sons e ritmos do Brasil". A atividade educativa, voltada ao público infantil, propõe apresentar às crianças a diversidade musical brasileira por meio de apresentações práticas e interação com instrumentos típicos de diferentes regiões do país.

A ação é parte da programação social do Festival Brasilidades, evento musical que será realizado no dia 5 de junho no Le Canton, também em Teresópolis, segundo O Dia. A iniciativa é um exemplo de como festivais podem — e devem — extrapolar o entretenimento e assumir um papel genuinamente educativo.

Ao levar crianças a explorar um zabumba, uma viola caipira ou um berimbau, o festival não apenas entretém: ele planta sementes de identidade cultural em gerações que, sem esse contato, talvez jamais descobrissem a riqueza sonora que habita o próprio país.

Um mosaico cultural que merece mais atenção

O que conecta Ricardo Ribeiro em suas ilustrações de aves, os gestores culturais debatendo política nas capitais e as crianças de Teresópolis tocando instrumentos folclóricos? Uma mesma urgência: a de que a cultura brasileira seja levada a sério como pilar de desenvolvimento social.

O Brasil tem matéria-prima de sobra — biodiversidade, diversidade étnica, tradições musicais, riqueza visual. Faltam, segundo os especialistas, investimento contínuo, desideologização das políticas públicas e, acima de tudo, a compreensão de que arte e educação não são opostos da ciência ou da economia — são, na verdade, seus mais poderosos aliados.

Iniciativas como as descritas aqui são, cada uma à sua maneira, fragmentos de um mosaico maior. Um mosaico que, quando completo, pode revelar o verdadeiro rosto cultural de um país ainda em processo de se descobrir.

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Fontes: Terra da Gente / G1 Campinas (15/05/2026), Estadão (13/05/2026) e O Dia / Teresópolis (15/05/2026).

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