O que falta para o Brasil ter mais startups globais? Especialistas apontam os principais desafios
Pouca fluência em inglês, falta de coordenação entre agentes de inovação e insegurança jurídica estão entre os principais obstáculos para a internacionalização de startups brasileiras, segundo especialistas reunidos no São Paulo Innovation Week (SPIW) em maio de 2026. O problema, segundo os painelistas, vai muito além da escassez de recursos financeiros.

- Especialistas no SPIW 2026 apontam que a internacionalização de startups brasileiras é travada por falta de coordenação entre agentes de inovação, não apenas por falta de dinheiro
- A pouca fluência em inglês entre fundadores foi destacada como barreira significativa para negociações e captação de investimento estrangeiro
- Cristina Bando, do Sebrae, alertou que os instrumentos de apoio existem, mas os empreendedores não sabem como ou quando acessá-los
- Rodrigo Costa, da Finep, lembrou que países líderes investiram cerca de US$ 2 bilhões ao ano em tecnologias quânticas em 2024, nível ainda distante do Brasil
- Insegurança jurídica e falta de continuidade de políticas públicas entre gestões também foram citadas como obstáculos estruturais
Brasil tem instrumentos, mas falta comunicação com o empreendedor
O Brasil possui uma série de mecanismos de apoio à inovação, mas os empreendedores muitas vezes não sabem como acessá-los. Essa foi uma das conclusões centrais do painel sobre políticas para internacionalização dos ecossistemas de inovação, realizado no São Paulo Innovation Week (SPIW) no dia 14 de maio de 2026.
"Existem muitos bons instrumentos dos atores da agenda de inovação, mas hoje existe talvez uma desconexão com o momento do empreendedor. Então, não conseguimos comunicar a ele onde acessar, qual instrumento, em qual momento", afirmou Cristina Bando, head de startups no Sebrae, durante o evento.
O SPIW, considerado o maior festival global de tecnologia e inovação, é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, com sede no Pacaembu e na FAAP, em São Paulo. A edição de 2026 contou com mais de 2 mil palestrantes nacionais e internacionais ao longo de três dias.
O dinheiro é importante, mas não é tudo
Um dos pontos mais debatidos no painel foi a visão de que o problema da internacionalização não se resume ao volume de investimentos disponíveis. Rodrigo Costa, analista da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), destacou que questões culturais e a falta de projetos de longo prazo também pesam na balança.
"Em 2024, os maiores países do mundo investiram na faixa de US$ 2 bilhões ao ano em tecnologias quânticas", contextualizou Costa, ressaltando que o Brasil ainda está distante desse patamar de comprometimento contínuo com áreas estratégicas de inovação.
Para efeito de comparação, US$ 2 bilhões equivalem a aproximadamente R$ 10 bilhões na cotação atual — cifra que representa um compromisso de longo prazo que exige estabilidade de política pública e previsibilidade orçamentária, elementos que, segundo os especialistas, ainda faltam no ecossistema brasileiro.
Desafios estruturais que travam a expansão internacional
O painel elencou uma série de obstáculos concretos que as startups brasileiras enfrentam ao tentar expandir para mercados externos. Entre os principais, os especialistas destacaram:
- Pouca fluência em inglês entre fundadores e equipes técnicas, o que dificulta negociações, captação de investimento estrangeiro e a comunicação com parceiros internacionais; - Falta de coordenação entre os agentes de inovação, como governo, universidades, aceleradoras e fundos de investimento, que atuam de forma fragmentada; - Dificuldades logísticas de exportação, especialmente para startups de produtos físicos ou soluções que exigem presença local; - Insegurança jurídica, que afasta investidores estrangeiros e torna contratos internacionais mais complexos; - Falta de continuidade de projetos entre diferentes gestões governamentais, o que interrompe iniciativas estratégicas a cada troca de administração.
O papel das instituições públicas na internacionalização
Carlos Matsumoto, chefe da assessoria especial de assuntos internacionais no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), e Luís Peles, gerente de projetos e operações na Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec), também compuseram o painel e reforçaram a necessidade de maior articulação entre os setores público e privado.
A participação do MCTI no debate sinaliza que o governo federal reconhece a internacionalização como uma agenda prioritária. No entanto, os especialistas foram unânimes ao afirmar que reconhecer o problema não é suficiente — é preciso criar mecanismos ágeis, acessíveis e com continuidade garantida para que as startups possam de fato cruzar fronteiras.
O que outros países fazem de diferente?
Nações como Israel, Estônia e Singapura são frequentemente citadas como referências em internacionalização de startups. Esses países investem pesadamente em programas de soft landing — estruturas que facilitam a aterrissagem de empresas locais em mercados estrangeiros, com suporte jurídico, fiscal e de networking já estabelecido.
No Brasil, iniciativas nesse sentido existem, mas de forma pulverizada e com baixa visibilidade entre os próprios empreendedores — exatamente o problema apontado por Cristina Bando, do Sebrae. A falta de um "mapa" claro dos instrumentos disponíveis faz com que muitas startups percam oportunidades por simples desconhecimento.
O inglês como barreira invisível — mas poderosa
Um dado que chamou atenção no debate foi a menção à barreira linguística. Embora pareça um problema individual, a dificuldade coletiva com o inglês tem impacto sistêmico: pitches mal apresentados para investidores estrangeiros, contratos interpretados de forma equivocada e dificuldade de networking em eventos internacionais são consequências diretas dessa lacuna.
Segundo especialistas em ecossistemas de inovação, startups de países como Holanda, Suécia e Coreia do Sul avançam mais rapidamente no mercado global em parte porque dominam o inglês como segunda língua desde cedo — o que permite que seus fundadores acessem capital, talentos e mercados com muito menos atrito.
O que se espera do ecossistema brasileiro daqui para frente
Apesar do diagnóstico desafiador, o tom do painel não foi pessimista. Os especialistas concordaram que o Brasil tem ativos competitivos reais: um mercado interno robusto de mais de 200 milhões de consumidores, diversidade de setores com potencial de inovação (agronegócio, fintechs, healthtechs) e uma geração de empreendedores cada vez mais conectada ao cenário global.
O que falta, segundo eles, é transformar esse potencial em estratégia coordenada. Isso passa por reformas na comunicação dos instrumentos de fomento, maior estabilidade regulatória, investimento em educação bilíngue e, sobretudo, políticas públicas que sobrevivam às trocas de governo.
O São Paulo Innovation Week de 2026 encerrou suas atividades no dia 15 de maio, deixando como legado um debate urgente: o Brasil tem o que é preciso para crescer globalmente — mas ainda precisa aprender a organizar o que já tem.




